Você Conhece a História das Ideias que Defende? — Como Narrativas Podem Transformar uma Sociedade

As Ideias que Defendemos Também Têm uma História

Vivemos em uma época na qual palavras como “fascista”, “comunista”, “socialista”, “conservador”, “progressista” e “reacionário” aparecem diariamente nas redes sociais, universidades, meios de comunicação e até nas conversas familiares. São termos carregados de história, mas frequentemente utilizados como rótulos rápidos, capazes de encerrar uma discussão antes mesmo que ela tenha realmente começado.

Existe, porém, uma pergunta anterior a qualquer posicionamento político: quantas pessoas que utilizam essas palavras estudaram aquilo que elas significaram historicamente? Quantas leram diretamente os autores que defendem ou condenam? E quantas receberam suas interpretações através de professores, jornalistas, políticos, influenciadores, familiares ou grupos aos quais pertencem?

Isso não é necessariamente sinal de ignorância. Todos nós herdamos parte importante de nossa visão de mundo. Aprendemos valores com a família, interpretações na escola, referências através da cultura e formas de compreender a sociedade pelo ambiente em que vivemos. O problema começa quando uma ideia herdada deixa de ser percebida como interpretação e passa a ser tratada como uma verdade que já não precisa ser investigada.

Foi justamente esse tipo de problema que o professor e filósofo brasileiro Olavo de Carvalho procurou abordar em uma palestra na qual relacionou as origens do fascismo, as transformações do movimento comunista, a Escola de Frankfurt, Antonio Gramsci e determinadas mudanças culturais ocorridas ao longo do século XX. Sua interpretação é contundente e, em vários pontos, controversa. Mas ela oferece uma pergunta que merece ser examinada: de onde vieram algumas das categorias com as quais hoje interpretamos a sociedade?

Responder a essa pergunta exige mais do que repetir uma palestra. É necessário compará-la com a história e com os próprios autores mencionados. Quando fazemos isso, descobrimos que certas conexões apresentadas por Olavo encontram sustentação documental clara, enquanto outras representam sua interpretação filosófica sobre fatos e pensadores. Fazer essa distinção não enfraquece seu argumento; ao contrário, permite compreendê-lo sem transformá-lo em dogma.

O objetivo, portanto, não é trocar uma narrativa pronta por outra. É justamente recuperar o hábito de perguntar: quem afirmou isso, em qual contexto, baseado em quê e com quais consequências?

Da Luta de Classes à Luta Entre Nações

No final do século XIX e início do século XX, o marxismo havia colocado a luta entre burguesia e proletariado no centro de sua interpretação histórica. A sociedade seria profundamente marcada pelo conflito entre aqueles que controlavam os meios de produção e aqueles que dependiam da venda de seu trabalho.

Entretanto, na Itália começou a surgir uma adaptação curiosa dessa linguagem. Enrico Corradini, escritor e dirigente nacionalista, passou a falar em “nações proletárias” e “nações plutocráticas”. Para ele, países como a Itália ocupariam, nas relações internacionais, posição semelhante àquela que o proletariado ocupava dentro da sociedade: seriam nações desfavorecidas diante das grandes potências. A própria enciclopédia italiana Treccani registra essa transposição da linguagem de classes para as relações entre nações. Treccani

Corradini não era socialista. Pelo contrário, combatia o socialismo internacionalista. O que importa aqui é observar como uma categoria criada num sistema de pensamento pode ser retirada daquele ambiente e utilizada de maneira diferente. A oposição “proletário contra burguês” podia agora ser convertida em “nação proletária contra nação rica”.

Alfredo Rocco participou do nacionalismo italiano e posteriormente aderiu ao fascismo, tornando-se ministro da Justiça de Mussolini e uma figura central na construção jurídica do Estado fascista. A documentação italiana registra sua atuação na organização jurídica e institucional do regime e sua posição nacionalista, antiliberal e antissocialista. Treccani

Por isso, é simplificador afirmar simplesmente que “o fascismo nasceu do socialismo”. A história é mais complexa. Nacionalismo radical, corporativismo, experiência da Primeira Guerra Mundial, crise do liberalismo, violência política e diferentes correntes intelectuais participaram dessa formação. Mas existe, de fato, uma interessante migração de categorias: conceitos originalmente empregados para interpretar conflitos de classe passaram também a ser utilizados para interpretar conflitos entre povos e nações.

É sobre esse deslocamento que Olavo chama atenção. Seu argumento é que estruturas de pensamento podem sobreviver mesmo quando mudam os personagens que ocupam cada posição. O conflito deixa de ser necessariamente burguesia contra proletariado e pode assumir outras formas: explorador contra explorado, centro contra periferia, opressor contra oprimido.

Isso nos leva a uma questão importante. Reconhecer que existem desigualdades e relações de poder é uma coisa. Transformar toda a realidade numa disputa permanente entre dois grupos antagônicos é outra.

Quando a Revolução Sai da Economia e Entra na Cultura

Ao longo do século XX surgiu um problema para determinados pensadores marxistas. A revolução proletária prevista para os grandes países industrializados não ocorreu conforme se esperava. Em muitas sociedades capitalistas, trabalhadores conquistaram melhores salários, direitos políticos, proteção social e acesso crescente ao consumo.

Se a classe operária não desejava derrubar o sistema, era necessário compreender por quê.

É nesse ambiente que ganha importância o Instituto de Pesquisa Social, posteriormente conhecido como Escola de Frankfurt. Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e outros autores passaram a estudar não apenas economia, mas também cultura, psicologia, autoridade, comunicação, arte e comportamento. A chamada Teoria Crítica ampliava a investigação sobre as formas pelas quais uma sociedade reproduz seus valores e suas estruturas de poder. Enciclopédia de Filosofia de Stanford

Na interpretação apresentada por Olavo, essa mudança possui enorme importância. A crítica que anteriormente se concentrava no capitalismo e nas relações econômicas passou progressivamente a alcançar instituições como família, educação, religião, moral, sexualidade e cultura.

É preciso cuidado aqui. Os pensadores da Escola de Frankfurt não escreveram simplesmente que toda família, toda religião ou toda moral deveriam ser destruídas. Essa seria uma caricatura de obras muito mais complexas. Mas eles realmente contribuíram para ampliar o campo da crítica social, colocando sob investigação instituições e valores que até então eram muitas vezes tratados como naturais.

É justamente nesse ponto que surge uma questão relevante mesmo para quem nunca leu esses filósofos: o que acontece quando passamos a observar todas as instituições principalmente através de suas contradições?

Famílias podem ser injustas. Escolas podem abusar da autoridade. Religiões podem cometer excessos. Governos podem oprimir. Empresas podem explorar. Tradições podem conservar erros. Nenhuma dessas afirmações é absurda.

O problema aparece quando encontrar uma imperfeição passa a ser suficiente para condenar toda a estrutura.

A Dialética Negativa e os Limites da Crítica

Olavo utiliza a expressão dialética negativa, associada sobretudo à obra de Theodor Adorno, como uma das chaves para sua interpretação. Na palestra, ele apresenta essa forma de pensamento como uma tendência a observar continuamente aquilo que existe procurando exploração, sofrimento, repressão e contradições.

A filosofia de Adorno é, porém, mais complexa do que essa definição. Em Dialética Negativa, publicada em 1966, ele critica sistemas filosóficos que pretendem encaixar toda a realidade dentro de categorias conceituais fechadas. Sua preocupação central está ligada ao que chama de “não idêntico”: aquilo que existe concretamente e que não pode ser reduzido completamente às classificações criadas pelo pensamento. Enciclopédia de Filosofia de Stanford

Essa distinção é importante porque evita atribuir a Adorno uma definição que ele próprio não formulou nesses termos. Quando Olavo de Carvalho descreve a dialética negativa como uma crítica capaz de encontrar aspectos de dominação e negatividade em praticamente todas as estruturas humanas, ele está oferecendo uma interpretação crítica das consequências dessa filosofia, e não simplesmente repetindo uma definição retirada de Adorno.

O leitor ganha mais quando conhece os dois níveis: aquilo que o filósofo procurou formular em Dialética Negativa e aquilo que seu crítico acredita decorrer desse modo de pensar. Em linguagem simples, Adorno desconfiava dos sistemas filosóficos que pretendiam reduzir toda a complexidade da realidade a um conjunto fechado de conceitos. Enciclopédia de Filosofia de Stanford

O ponto crítico levantado por Olavo aparece quando esse método deixa o terreno estritamente filosófico e se converte numa postura cultural permanente. Se toda realidade humana contém alguma imperfeição — e inevitavelmente contém — será sempre possível encontrar mais um motivo para criticá-la.

Nesse caso, o casamento pode ser interpretado apenas pelas relações de poder que contém. A escola, pelas estruturas de autoridade. A religião, pelas hierarquias. A tradição, pelos erros que preservou. A linguagem, pelos interesses que poderia esconder.

Mas existe uma pergunta que precisa acompanhar esse processo: demonstrar que uma instituição possui defeitos demonstra também que ela deveria deixar de existir?

Uma sociedade madura talvez precise aprender justamente essa diferença. Reformar não é o mesmo que destruir. Identificar um problema não significa que conhecemos automaticamente uma solução melhor. E substituir uma instituição imperfeita por algo completamente novo pode produzir consequências que seus críticos nunca imaginaram.

Gramsci: Poder Também é Construção de Consenso

Se a Escola de Frankfurt ajuda a compreender a ampliação da crítica cultural, Antonio Gramsci oferece outra peça importante desse quebra-cabeça.

Gramsci foi dirigente comunista italiano, preso pelo regime fascista de Mussolini, e escreveu durante o encarceramento grande parte dos textos que posteriormente formariam os Cadernos do Cárcere. Uma das ideias mais importantes desenvolvidas nesses escritos é a de hegemonia.

Para Gramsci, uma sociedade não é governada exclusivamente pela força. Exércitos, polícia e leis possuem importância, mas regimes duradouros também precisam construir algum grau de consentimento. Pessoas aceitam determinada ordem porque aprendem valores, interpretações e formas de compreender o mundo que ajudam a torná-la legítima.

É nesse ponto que instituições culturais adquirem importância. Nos Cadernos do Cárcere, Gramsci dedica atenção especial à chamada sociedade civil e ao papel exercido por intelectuais, escolas, igrejas, jornais, associações e outras organizações na formação do consenso. Para ele, a estabilidade de uma ordem política não depende apenas da coerção exercida pelo Estado, mas também da capacidade de uma visão de mundo tornar-se aceita como normal, razoável ou legítima por grande parte da população.

Por isso, quando Gramsci fala em hegemonia, não está simplesmente descrevendo propaganda partidária. Ele procura compreender como determinados valores passam a ocupar posição dominante na cultura e como grupos sociais disputam essa influência. Nesse contexto, distingue a “guerra de movimento”, relacionada ao confronto mais direto pelo poder, da “guerra de posição”, muito mais prolongada e ligada à conquista gradual de influência e consentimento dentro da sociedade civil.

Essa distinção ajuda a compreender por que cultura, educação e formação intelectual adquiriram tamanha importância no debate político moderno. Isso ajuda a compreender por que educação, jornalismo, arte, produção intelectual e linguagem podem tornar-se terrenos políticos mesmo quando nenhuma bandeira partidária está presente.

Um professor transmite conhecimento, mas inevitavelmente também seleciona autores e interpretações. Um jornalista escolhe quais acontecimentos merecem destaque. Um artista participa da formação de símbolos. Um influenciador ajuda a normalizar determinados comportamentos. Isso não significa que todos estejam executando um plano organizado de manipulação. Significa apenas reconhecer que a cultura participa da formação das convicções políticas.

E se isso é verdade, diversidade intelectual e liberdade de discussão tornam-se especialmente importantes dentro das instituições responsáveis pela formação das novas gerações.

Quando o Comportamento Muda Antes da Ideia

A palestra introduz ainda outra provocação interessante: pessoas não mudam necessariamente suas crenças apenas porque foram convencidas intelectualmente. Em determinadas situações, mudanças de comportamento podem acontecer primeiro, e as justificativas aparecem depois.

Esse ponto encontra paralelo em diversos estudos da psicologia social. O ser humano procura coerência entre aquilo que pensa, aquilo que faz e a imagem que possui de si mesmo. Quando essas coisas entram em conflito, podemos alterar nossas interpretações para reduzir o desconforto.

Um exemplo clássico aparece nos experimentos de Jonathan Freedman e Scott Fraser, publicados em 1966 no Journal of Personality and Social Psychology e associados à técnica conhecida como “pé na porta”. Os pesquisadores testaram se alguém que aceitasse inicialmente um pedido pequeno demonstraria maior disposição para concordar posteriormente com um pedido mais significativo, e os experimentos encontraram esse efeito nas condições estudadas. Isso não significa que uma pequena concessão conduza inevitavelmente a outra maior, mas demonstra que comportamentos anteriores podem influenciar decisões posteriores. PubMed

Também existem, portanto, mecanismos de influência baseados em pequenos compromissos progressivos. Um indivíduo aceita algo aparentemente pouco importante e, depois, pode demonstrar maior disposição em aceitar outro compromisso relacionado. Tais processos não transformam pessoas em robôs e tampouco provam a existência de manipulação política organizada. Apenas mostram que nossas opiniões não são formadas exclusivamente pela razão consciente.

Ambiente, repetição, aprovação social, autoridade e pertencimento também exercem influência.

Uma palavra é repetida tantas vezes que deixa de causar estranhamento. Um símbolo passa a ser associado automaticamente a determinada virtude. Um personagem histórico é reduzido a uma fotografia. Um conceito deixa de ser discutido e passa simplesmente a ser pressuposto.

Com o tempo, uma geração pode utilizar ideias cuja genealogia desconhece completamente.

Quando Conhecemos o Símbolo, mas Não Conhecemos o Personagem

Ernesto “Che” Guevara oferece um exemplo interessante desse fenômeno. Décadas após sua morte, sua fotografia continua aparecendo em camisetas, cartazes e objetos associados a rebeldia, resistência e contestação.

O personagem histórico, entretanto, é mais complexo do que a imagem transformada em produto cultural.

Guevara foi um revolucionário marxista, participou diretamente da Revolução Cubana, defendeu a luta armada e ocupou posições de poder no novo regime. Depois da vitória revolucionária, esteve ligado à prisão de La Cabaña, onde ocorreram tribunais revolucionários e execuções; as estimativas sobre número e responsabilidade específica variam entre autores, mas sua participação nesse processo é parte relevante de sua trajetória.

Para quem desejar investigar além do símbolo, uma das biografias mais conhecidas é Che Guevara: A Revolutionary Life, do jornalista Jon Lee Anderson, resultado de extensa pesquisa documental e entrevistas. Outra referência recorrente é Compañero: The Life and Death of Che Guevara, de Jorge Castañeda. As duas obras apresentam interpretações próprias, mas ajudam a reconstruir o personagem histórico de maneira muito mais ampla do que a imagem estampada em camisetas ou o retrato simplificado apresentado por admiradores e adversários.

Isso não determina automaticamente qual julgamento moral alguém deve fazer sobre ele. O ponto aqui é outro. Uma pessoa pode usar durante anos a imagem de Che sem jamais ter lido um texto dele ou uma biografia séria. Da mesma maneira, alguém pode aprender a odiá-lo sem nunca ter estudado suas ideias.

Nos dois casos, conhece-se o símbolo antes do homem.

E talvez o mesmo ocorra com muitos personagens históricos: Marx, Mussolini, Fidel Castro, Gramsci e até Olavo de Carvalho podem ser transformados em imagens simplificadas antes que suas obras sejam efetivamente abertas.

A Paralaxe Cognitiva: Quando a Teoria Não Enxerga a Si Mesma

É aqui que aparece um dos conceitos mais interessantes utilizados por Olavo: a paralaxe cognitiva. Na palestra, ele a apresenta como um afastamento entre aquilo que um pensador afirma teoricamente e aquilo que sua própria experiência concreta revela.

Não se trata necessariamente de mentira ou hipocrisia.

Uma pessoa hipócrita sabe que existe uma contradição e procura escondê-la. Na paralaxe cognitiva, o indivíduo pode acreditar sinceramente na teoria e simplesmente não perceber que ele próprio constitui uma exceção às regras que formulou.

Olavo utiliza Marx como exemplo. Se toda visão histórica fosse inevitavelmente deformada pela posição de classe, como alguém que não pertencia ao proletariado poderia produzir aquilo que afirmava ser uma interpretação objetiva dos interesses proletários? O argumento de Olavo não encerra o debate sobre Marx, mas mostra o tipo de contradição que deseja destacar.

O princípio pode ser aplicado muito além do marxismo.

Se alguém afirma que toda opinião é determinada por interesses, sua própria opinião também precisa ser examinada dessa maneira. Se diz que todo discurso é uma forma de poder, seu próprio discurso também exerce poder. Se considera todas as instituições suspeitas, a instituição à qual pertence também deve aceitar investigação.

Uma filosofia que utiliza determinada ferramenta para analisar todas as outras, mas se recusa a permitir que essa ferramenta seja aplicada a si mesma, cria uma exceção extremamente conveniente.

Por isso talvez uma das formas mais simples de avaliar qualquer sistema de pensamento seja perguntar: Ele sobrevive aos próprios critérios?

Liberdade e o Poder Concedido ao Estado

Outro tema da palestra é a tensão entre liberdade individual e autoridade pública. Olavo utiliza exemplos bastante provocativos para argumentar que intervenções aparentemente pequenas sobre hábitos privados podem abrir precedentes para intervenções maiores.

Não é necessário aceitar todos os exemplos oferecidos por ele para reconhecer a importância da pergunta.

Todo Estado exerce algum grau de autoridade. Existem leis criminais, sanitárias, econômicas, ambientais e trabalhistas porque nenhuma sociedade complexa funciona sem regras. Ao mesmo tempo, sociedades livres criaram direitos individuais, separação de poderes, devido processo legal, liberdade de imprensa e limites constitucionais justamente porque o poder público também pode ultrapassar seus limites.

O problema, portanto, não é escolher entre “Estado” e “nenhum Estado”.

A pergunta é: quanto poder estamos dispostos a entregar e quais mecanismos impedirão que ele seja utilizado para finalidades diferentes daquelas que originalmente justificaram sua concessão?

Projetos políticos de diferentes orientações podem prometer segurança, igualdade, prosperidade ou proteção para justificar maior concentração de poder. A história recomenda cautela sempre que qualquer autoridade afirma precisar de menos fiscalização para produzir um bem maior.

Quem Critica Também Precisa Aceitar a Crítica

Talvez esse seja o ponto no qual todas essas ideias se encontram.

A crítica é indispensável. Sem ela, governos abusam do poder, empresas podem explorar pessoas, tradições preservam erros e instituições deixam de corrigir suas próprias falhas. Uma sociedade incapaz de questionar a si mesma corre o risco de ficar presa aos seus próprios equívocos.

Mas existe diferença entre possuir pensamento crítico e transformar a crítica numa identidade.

Olavo utiliza uma imagem sugestiva ao descrever o crítico que deseja ser “o olho que tudo vê, mas que nunca é visto”. Todos podem ser examinados, julgados e desconstruídos, exceto aquele que ocupa permanentemente a cadeira do examinador.

Quando isso acontece, o debate deixa de perguntar se uma afirmação é verdadeira e começa a perguntar a qual grupo ela pertence.

Personagens históricos tornam-se santos ou monstros. Livros deixam de ser lidos e passam a ser conhecidos apenas pelos comentários de terceiros. Palavras como fascismo, comunismo, opressão e liberdade deixam de funcionar como conceitos e começam a funcionar principalmente como instrumentos de aprovação ou condenação moral.

Nesse momento, o indivíduo acredita estar pensando por conta própria enquanto talvez esteja apenas defendendo uma posição que nunca investigou profundamente.

Você Conhece a História das Ideias que Defende?

Talvez essa seja a pergunta mais importante que podemos retirar de toda essa discussão.

Não é necessário aceitar integralmente a leitura que Olavo de Carvalho faz da Escola de Frankfurt, de Gramsci ou da história do pensamento revolucionário para reconhecer o valor do problema que ele coloca. Ideias possuem origem. Autores possuem biografia. Movimentos políticos atravessam transformações. Conceitos carregam debates que começaram muito antes de nós.

Quando desconhecemos essa história, ficamos mais dependentes da interpretação oferecida por quem primeiro nos apresentou o assunto.

Pode ser um professor. Um jornalista. Um político. Um religioso. Um influenciador. Nossa família. Nosso grupo social. E, naturalmente, pode ser também um autor com quem concordamos profundamente.

Conhecer a história não significa que todos chegarão à mesma conclusão. Duas pessoas podem estudar os mesmos documentos e interpretar de maneira diferente suas consequências. Essa divergência faz parte de uma sociedade livre.

Existe, porém, enorme diferença entre discordar depois de investigar e repetir antes de verificar.

Talvez, portanto, antes de perguntar se alguém é de esquerda, direita, socialista, conservador ou liberal, devêssemos fazer uma pergunta anterior: Quanto você realmente conhece da história das ideias que está defendendo? Se a resposta for “pouco”, isso não representa uma condenação. Representa apenas o começo de uma investigação.

E talvez exista nisso uma forma bastante concreta de liberdade: não entregar completamente a terceiros a tarefa de decidir o que devemos pensar.

Pra Você Continuar esta Investigação

Este artigo foi concebido como uma introdução, não como conclusão. Quem quiser avançar encontrará perspectivas muito diferentes nas próprias obras que mencionei ao longo do texto.

Entre elas, vale conhecer Antonio Gramsci em Cadernos do Cárcere, especialmente para compreender hegemonia, sociedade civil e o papel dos intelectuais; Theodor Adorno em Dialética Negativa, para conhecer o conceito diretamente em sua fonte; e os escritos de Ernesto Che Guevara, entre eles Guerra de Guerrilhas, para compreender o revolucionário através de suas próprias palavras.

Para conhecer a interpretação crítica que serviu de ponto de partida a este artigo, obras de Olavo de Carvalho, como A Nova Era e a Revolução Cultural — Fritjof Capra & Antonio Gramsci, O Jardim das Aflições e textos nos quais desenvolve o conceito de paralaxe cognitiva ajudam a compreender seu diagnóstico sobre cultura, revolução e pensamento moderno.

O leitor interessado poderá ainda confrontar essas obras com biografias, estudos históricos e autores que discordam delas. Isso é importante porque ler exclusivamente quem confirma nossas convicções pode produzir exatamente o problema que procuramos evitar.

O objetivo desta investigação, portanto, não é fornecer uma nova cartilha. É recuperar uma pergunta que nunca deveria sair de nossas mãos: “De onde veio aquilo em que acredito — e o que encontrarei se decidir verificar?”

Nota Editorial

Diante do acirramento do debate político e social vivido pelo Brasil em 2026, o autor considerou saudável oferecer aos leitores do “Canal Livre na Web” esta reflexão. Muitas ideias e comportamentos coletivos tornam-se comuns antes que conheçamos suficientemente sua origem histórica, seus autores e as circunstâncias em que surgiram. Este artigo nasceu justamente do desejo de estimular essa investigação — não para substituir uma convicção por outra, mas para que cada leitor possa compreender melhor aquilo que escolhe defender.

Pesquisa e Elaboração do Conteúdo por José Carlos de Andrade _ Se Gostou, _ Compartilhe…

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